• Nathalia Fabro
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Catador Michel Douglas Bezerra da Silva (Foto: Ana Oshiro/Divulgação )

Catador Michel Douglas Bezerra da Silva, registrado no Cataki (Foto: Ana Oshiro/Divulgação )

Em 2018, o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana apontou que 24% das residências brasileiras não possuem coleta seletiva e a média de reaproveitamento dos materiais recicláveis é de apenas 3,7%. A pesquisa, promovida pelo Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb) com a consultoria PwC (PricewaterhouseCoopers), ainda mostrou que 53% dos resíduos são descartados inadequadamente em lixões a céu aberto. 

Para mudar essa realidade, surgiu o aplicativo Cataki, que une catadores e geradores de resíduos de todo o país. "Havia uma carência muito forte entre as pessoas e o descarte adequado. Nas grandes cidades, até quem queria fazer coleta seletiva não conseguia", diz à GALILEU Henrique Ruiz, coordenador da ferramenta. 

Segundo dados do Cataki, os profissionais de coleta separaram corretamente 90% dos itens que são reciclados no Brasil. E muitos sobrevivem com a renda pífia dos materiais: um quilo de plástico ou de papelão, por exemplo, vale somente 20 centavos. Já o quilo do vidro é mais desvalorizado, rendendo apenas 5 centavos.

Sandra de Sá que nos desculpe, mas estes números e do estudo mostram que "jogar fora no lixo" não é a melhor solução para se desfazer dos resíduos – e muito menos dos problemas da vida. 

Logo do Cataki está disponível para ser impresso em adesivos (Foto: Reprodução/Cataki)

Logo do Cataki está disponível para ser impresso em adesivos (Foto: Reprodução/Cataki)

Como funciona
Profissionais de coleta, cooperativas e geradores – pessoas físicas ou jurídicas – podem instalar o Cataki gratuitamente em aparelhos que tenham os sistemas iOS (Apple Store) ou Android (Google Play). Após fazer o cadastro, já é possível navegar pela plataforma. 

No caso do catador, é preciso indicar a região onde trabalha e preencher um breve perfil com dados pessoais, número de telefone e que tipo de material recolhe. Há também campos para inserir fotos, história de vida e frases, por exemplo. "Isso humaniza os catadores, que têm muita vontade de falar e ficam escondidos na sociedade", fala Ruiz. "É um canal aberto para mostrar quem eles são." 

Interface de localização e catador no app Cataki (Foto: Reprodução/Cataki)

Interface de localização e catador no app Cataki (Foto: Reprodução/Cataki)

O app utiliza a localização para mostrar quais catadores (representados como carrocinhas) estão mais próximos. Caso o gerador tenha interesse, é necessário entrar em contato diretamente com o profissional para combinar a retirada dos resíduos. 

Só não cato coquinho 
Lançado em 2017, o app foi idealizado por Mundano, artista que também criou o Pimp My Carroçaprojeto de estilização de carroças. No começo, a proposta do Cataki era impulsionar a coleta de materiais recicláveis mais comuns, como plástico, papel, metal e vidros.

Contudo, com o tempo, o dispositivo cresceu e passou a abranger outros itens: móveis, eletrônicos, pilhas, tijolos, lâmpadas, entulhos, restos de poda e madeira, por exemplo. "Não temos restrições a nenhum tipo de material", explica Ruiz. "É óbvio que alguns vão ter um custo ou não geram receita para o catador. Nestes casos, indicamos que tenha remuneração de alguma forma."

Materiais orgânicos, restos de alimentos, lixo hospitalar e outros itens que não podem ser reaproveitados ou enviados para ecopontos não são recolhidos. 

Negociação
Segundo o coordenador, o Cataki é uma plataforma aberta, pois não cobra taxa de nenhum usuário. "Incentivamos que o gerador pague o catador pela prestação do serviço", ele comenta. "O catador faz um serviço para a cidade, tirando até a responsabilidade do material da prefeitura e enviando-o para um local mais adequado."

Indepentendemente do preço combinado entre as duas partes, o aplicativo não fica com nenhuma quantia do valor e nem do material. "Não somos uma empresa de tecnologia, mas de gestão de catadores e resíduos", ressalta Ruiz. Caso os usuários precisem de alguma ajuda, há um suporte para tirar dúvidas. 

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Corrente do bem
O cadastramento no Cataki também funciona pelo site, sendo que qualquer pessoa pode inscrever um novo catador ou cooperativa sem custo nenhum. 

Interface da página de cadastro do Cataki (Foto: Reprodução/Cataki)

Interface da página de cadastro do Cataki (Foto: Reprodução/Cataki)

Atualmente, o app está ativo em cerca de 200 municípios brasileiros. São Paulo, Rio de Janeiro e Recife possuem o maior número de profissionais registrados. Um dos destaques é Xanxerê, no oeste de Santa Catarina, que tem quase 50 mil habitantes e integra a lista das dez cidades com mais catadores inscritos. 

O dispositivo pode ser usado em qualquer lugar, seja zona rural ou urbana. "O Cataki tem tendência de se tornar a principal plataforma de descartes do país", afirma Ruiz. "Onde tiver um catador e um gerador registrado o app pode funcionar."

O Cataki estima que existam mais de 800 mil pessoas no Brasil atuando como catadores atualmente, sendo que cerca de mil estão cadastradas na plataforma. 

Fazendo acontecer
Por mais que tenha surgido do Pimp My Carroça – e mantenha projetos juntos até hoje –, o Cataki já conta com uma equipe própria responsável pelo atendimento, coordenadoria e desenvolvimento da ferramenta. 

Há também oportunidades para voluntariado nas áreas de comunicação, design, atividades de escritório, programação, captação de recursos, cadastramento de usuários, entre outros. O Cataki ainda disponibiliza flyers e adesivos gratuitos online para quem quiser fazer campanhas informativas sobre o aplicativo. 

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Em fevereiro de 2018, o dispositivo foi premiado durante o Fórum Netexplo, que aconteceu na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), na França. O prêmio foi concedido a projetos de tecnologia que têm impacto positivo nos ambitos social e de negócios. 

Cataki 2.0
Em 2019, o app vai passar por melhorias. Há um projeto de gamificação, na qual a busca pela retirada de materiais poderá somar pontos para os geradores de resíduos, que terão como usar a pontuação por produtos de lojas de varejo, por exemplo. 

Segundo Ruiz, também existe a intenção de inserir um assistente pessoal que possa ajudar os catadores em assuntos jurídicos ou bancários. "O catador é a figura central do aplicativo. É ele que vai permitir acontecer outra tela, que é aumentar a meta de reciclagem", ele diz. "Se o catador não estiver bem tratado e satisfeito com nosso app, não conseguimos atender a parte da coleta." 

Catador Michel Douglas Bezerra da Silva, registrado no Cataki (Foto: Ana Oshiro/Divulgação )

Catador Michel Douglas Bezerra da Silva, registrado no Cataki (Foto: Ana Oshiro/Divulgação )

Outro ponto que está sendo estudado é a criação de coleta seletiva para empresas. Isso porque as grandes companhias precisam dar satisfação sobre o descarte de materiais, conforme manda a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a Lei da Logística Reversa. 

Estas novidades devem ser lançadas ainda no primeiro semestre de 2019. "Quero atingir o gerador de resíduo comum, ainda sem consciência. Para chegar nele, é preciso dar algum incentivo", fala Ruiz. "A pessoa engajada vai continuar no app, mas também queremos alcançar a população que apenas busca benefícios imediatos."

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